Resenha do livro “Vigiar e Punir”, de Michel Foucalt

1 set

Desde que o ser humano começou a multiplicar-se e evoluir culturalmente o mundo foi se desenvolvendo paralelamente e com isso veio a necessidade do controle de uma minoria sobre uma massa, ou seja, o poder do homem sobre outro homem. A partir desta necessidade de controle foi criado o Estado. Ele seria o poder supremo dentro de uma sociedade com o objetivo de impedir a guerra de todos contra todos, pois uma sociedade sem leis é uma sociedade livre para fazer o que quiser, uma sociedade onde todos podem ficar livres e onde não existe a ideia do que é certo ou errado, pois não há regras. Uma sociedade sem regras não é de interesse da burguesia.

Durante o Estado de soberania as pessoas obedeciam às regras impostas pelo Estado por ter medo da morte, pois o Estado tinha o direito de morte, quem não obedecesse às leis morreria como punição. Dentro de uma sociedade sempre houve pessoas de diversas personalidades e identidades e as que não se encaixavam dentro do padrão de “normalidade” precisava ser exilada, ou seja, excluída. Durante esta sociedade de soberania era aplicado o modelo de exclusão para quem não fosse considerado “normal” (binarismo). Tem-se uma relação relativa do normal, ele era definido ao se constatar o que era patológico. Um exemplo de modelo de exclusão é como o Estado tratava os leprosos: as pessoas que tinham esta patologia eram exiladas, viviam em uma grande “cerca”. O poder médico e poder político eram exercidos pelo Estado. O sonho político deste modelo é o de uma comunidade pura, assim como sonhava Hitler com a raça ariana através do exílio é extermínio dos judeus.

Este texto de Michel Foucalt mostra outro modelo que veio sendo desenvolvido ao longo do progresso do ser humano. Este modelo é o “modelo disciplina”, no qual, é representado pela figura arquitetural da disciplina por excelência, o Panóptico. O Panóptico é uma “máquina” criada para manter em vigilância as pessoas que por algum motivo infringiram as leis ou possuem alguma patologia. Exemplos de instituições que usam a idéia do Panóptico na sua arquitetura e modo de funcionamento: escola, prisão e hospital.

O Panóptico faz uso dos dois modelos, o da exclusão e o da disciplina. Ele aplica na exclusão a técnica do quadriculamento disciplinar. O modelo da disciplina é um aperfeiçoamento do modelo de exclusão, sendo seu substituto. O principal objetivo desta “máquina” é fazer com que o detento tenha total consciência de que pode estar sendo vigiado a qualquer momento, pois desta forma ele não irá infringir nenhuma norma dentro da prisão que se encontra, pois sabe que tem alguém o vigiando e que será punido se faltar com a ordem. Nesta nova sociedade, sociedade disciplinar, o Estado não tem mais o direito de morte, pelo contrário, ele deve proporcionar a vida para os seres humanos. Há o medo da punição, mas não da morte, o medo de ser castigado por quem o vigia. Neste modelo o poder se torna independente daquele que o exerce, pois não importa quem vai estar na torre central do Panóptico ou se realmente vai estar alguém lá, o que importa é o que o detento saiba que pode estar sendo vigiado a qualquer hora do dia. O Panóptico é o oposto do Mito da Caverna de Platão, onde as pessoas viviam trancadas, privadas de luz e escondidas. Nesta arquitetura cada um tem seu lugar, ou melhor, sua jaula, e devem estar sempre visíveis, mas nunca podem ver.

O modelo disciplinar pode ser melhor compreendido ao se observar como as pessoas eram tratadas na época da peste: quem exercia o poder sabia exatamente quem eram todas as pessoas que tinham a doença, sabia seus nomes e onde moravam, eram feitas separações múltiplas, as pessoas eram analisadas e “repartidas”, em espaço recortado e vigiado a todo momento. A disciplina acaba com a necessidade de exercer o poder recorrendo à força, pois ela se introjeta nas pessoas se tornando algo automático na vida cotidiana de cada um. A vigilância é a prevenção da desordem, ela impede que alguém infrinja alguma regra.

O Panóptico é um modelo utópico, pois atualmente podemos ver que as instituições não funcionam tão plenamente como era idealizado por este modelo. Esta “máquina” disciplinar possibilita um menor custo econômico, pois o poder acaba sendo exercido espontaneamente. Os gastos com a repressão imposta pelo Estado, na época da sociedade de soberania, são cortados porque o poder é introjetado nas pessoas (psicogênese). É a partir deste idealizador que começa a surgir o modelo da fábrica, ou seja, quando as pessoas começam a ficarem “dóceis” tornando-se úteis, gerando um rendimento maior, com menor custo e melhor aproveitamento do tempo de trabalho. O modelo da fábrica é um ponto de extrema importância para perceber que o capitalismo começava a “bater suas asinhas”, ou seja, se tornar livre e poderoso.

A disciplina se divide em duas fases: disciplina-bloco e disciplina-mecanismo. A disciplina-bloco é exercida através das proibições, dos bloqueios e o poder é exercido através da hierarquia. O detento era enclausurado, não podia ter comunicação com ninguém. A disciplina-mecanismo é a da vigilância múltipla e intercruzada, deve-se saber que é vigiado e o poder se exerce automaticamente.

O processo de mudança da disciplina-bloco para a disciplina-mecanismo passou por tais etapas: inversão funcional das disciplinas; ramificação dos mecanismos e a estatização dos mecanismos disciplinares. De início era preciso neutralizar as pessoas, torná-las úteis e “dóceis”, possibilitando uma abrangência nos mecanismos de disciplina que começaram a se desinstitucionalizar e passaram a se permitir ter um controle mais flexível e de maior extensão. A estatização dos mecanismos isolou a religião, ela deixou de ser o poder dentro de uma sociedade e ficou apenas no campo da crença não mais no campo político. O poder se tornou conhecimento, quem tem o saber tem o poder. Neste processo a vigilância é imposta de todos para todos, as pessoas são policiadas por qualquer instituição ou qualquer pessoa na rua e até por si mesmas.

A família é a instituição que mais vigia e controla um ser humano. Desde o momento que a pessoa nasce ela está sendo vigiada pelos pais vinte e quatro horas por dia e ao crescer e se tornar jovem e depois adulto as cobranças não cessam, tornando-se ainda mais presentes na vida da pessoa.

Pode-se dizer que o Panóptico ficou realmente mais no campo ideológico do que no campo da ação, pois as instituições de poder são falhas e a todo o momento suas regras são infringidas e, atualmente, todo mundo vigia todo mundo, o que torna o vigia visível contrariando o princípio, defendido pelo Panóptico, de que quem vigia não pode ser visto.

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6 Respostas para “Resenha do livro “Vigiar e Punir”, de Michel Foucalt”

  1. Danielli março 23, 2009 às 8:13 pm #

    Adorei seu texto,explicativo e de fácil compreensão.
    me ajudou muiot no trabalho da Faculdade.
    Valeu

  2. Eduardo junho 10, 2009 às 12:02 pm #

    Talvez o Panóptico afinal funcione, e com muito mais eficácia, porque a vigilância é exercida sem consciência: quem vigia não é visto porque nem sabe que vigia.

  3. Roger outubro 28, 2009 às 7:52 pm #

    se esse desenho e diabolico

  4. Matias março 12, 2012 às 11:03 am #

    Podemos dizer que o panótipo foi reestruturado, em vez de o vigis não ser visto, seria melhor que todos os vissem. prefiro dizer que esse sistema foi muito mais que uma idelogia, pois influenciou na sociedade, de forma que podemos percebe presente no sistema atual uma presença concreta, de sua influência.

    • Thais abril 1, 2012 às 2:59 pm #

      Ops matias! Houve uma redundancia em sua fala. Se podemos perceber presente no sistema atual não necessita ser mencionado novamente a palavra prensença ja que fora citada anteriormente.Creio que você quis usar uma técninca de retórica, porém mais pareceu uma técnica de sofisma, onde se usam palavras difíceis e bem estruturadas no texto, no qual muito se fala e pouco se expressa, e cuja intenção é apenas impressionar.

      • Sérgio julho 6, 2012 às 11:35 pm #

        Thais, será que sua observação é relevante, uma vez que o Matias está se expressando com o intento de ajudar exclarecer um tema complexo e que faz parte do nosso cotidiano?

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