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INFORMAÇÃO E CULTURA

FERNANDO PESSOA – PARTE 1

Data: 02/12/07

O POETA DOS HETERÔNIMOS

Por: Natália Alves

Segundo o próprio Fernando Pessoa um poeta é um simulador, um criador de ilusões. Pessoa foi um ser humano tomado de uma suprema inteligência que, devido a isto, encontrou a necessidade da despersonalização.

Não há como separar Pessoa de seus heterônimos, pois apesar de cada um deles ter uma história de vida ficcional, criada por ele, não podem ser considerados personagens de um drama no qual eles não têm ligação com o autor, pois são os próprios heterônimos que “escrevem” os poemas, ou seja, não são personagens que são descritos por um autor e ganham vida própria em uma peça teatral ou uma história dramática, eles são os autores e por isso estão intimamente ligados a Pessoa.

Pessoa encontra em seus heterônimos a possibilidade de viver pensamentos e vidas que ele não tinha e não se permitia ter. Através de Alberto Caeiro ele pára de tentar compreender o mundo e esquece todos os seus questionamentos e sentimentos para simular viver uma vida simples, onde o que importa é apenas enxergar e mais nada. Com ele o mundo descomplica-se e não há nada além do que é visto. Não existe a alma, não existe o algo a mais para compreender ou decifrar porque está tudo ao alcance da visão e a vida é mais tranqüila e homogênea. Já com Álvaro de Campos, Pessoa vive de forma mais audaciosa e libertadora, era com ele que Pessoa escrevia de forma mais chocante e impulsiva diferente do modo mais moderado que o ortônimo Pessoa escrevia, por exemplo, na revista Presença (1927 – 1940).

Apesar de Pessoa não ter os mesmos pensamentos que seus heterônimos e discordar deles em diversos aspectos, ainda sim eles representavam um Pessoa que ficava preso dentro de si e que via a oportunidade de aparecer através das simulações. “Sou, porém, menos real que os outros, menos coeso, menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos. Sou também discípulo de Caeiro…” (Orpheu 2).

Os Heterônimos

Alberto Caeiro é o mestre de todos os heterônimos e também de Fernando Pessoa. Para definir Caeiro em poucas palavras basta dizer que ele é simples, indiferente e natural. “E ao lerem os meus versos pensem que sou qualquer coisa natural” (O Guardador de Rebanhos – I) / “O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum” (O Guardador de Rebanhos – V).

Pastor de seus próprios pensamentos, ou seja, seu rebanho, Caeiro existia no mundo sem desejos e propósito, “Não tenho ambições nem desejos” (O Guardador de Rebanhos – I), ele se limitava em ver e não pensar. Para ele não havia mistério nenhum nas coisas e no mundo, bastava olhar e ver as coisas como elas são. O que parece ser é, assim que Caeiro simplificava o mundo ao seu redor. O que importa são os sentimentos, pois eles próprios já são os pensamentos e a essência não existe, pois ela é a aparência e vice-versa.

O que importa é existir, estar no mundo e olhar em volta sem nunca pensar sobre o que está vendo, aceitar o mundo como ele lhe é posto e saber que não existem mistérios e nem fundamentos na realidade, o real é o que se vê e pronto, “Há metafísica bastante em não pensar em nada” (O Guardador de Rebanhos – V) / “O espelho reflete certo; não erra porque não pensa. Pensar é essencialmente errar. Errar é essencialmente estar cego e surdo” (Poemas Inconjuntos).

Ricardo Reis, discípulo de Caeiro, solidifica o paganismo, descoberto por Caeiro, através de uma escrita clássica e vocabulário erudito. Reis é médico e vive no Brasil porque por sua própria vontade expatriou-se de Portugal por ser monárquico. Ele busca o equilíbrio e, desta forma, afasta-se do naturalismo de Caeiro que aceita as coisas como são. Reis também se confronta com seu mestre ao idealizar os deuses da mitologia grega, pois para Caeiro não se deve pensar em Deus, ou melhor, não se deve ao menos pensar. Para Reis os deuses estão acima de tudo e de todos, “Acima da verdade estão os deuses. Nossa ciência é uma falhada cópia da certeza com que eles sabem que há o Universo”.

A vida de Álvaro de Campos é a que mais se aproxima da de

Pessoa por ele se tratar de um urbano e contemporâneo da eletricidade, máquinas e usinas. É engenheiro, pragmático e representa a atualidade.

Há três estágios na obra de Campos: Pré-caeiro: este estágio é caracterizado pelo simbolismo, modernidade, velocidade, eletricidade e máquina. Ao contrário de Caeiro e Reis ele guia seu próprio automóvel, se insere totalmente na modernidade e fica longe da simplicidade da vida campestre do seu mestre.

Eufórico: estágio caracterizado pelo futurismo. Caeiro é exaltado e excessivo em seus poemas. Saudação a Walt Whitman é um poema que traduz esta fase de Campos. Walt Whitman foi um poeta americano que morreu antes mesmo do nascimento de Campos e quem o influenciou de tal forma que Campos diz ser Walt Whitman e

que ele também o é. Walt Whitman era voltado para as realizações e

satisfações humanas e foi desta forma que impressionou Campos. Talvez a melhor frase que pode traduzir esta fase de Campos é esta:

“Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma” (Saudação a Walt Whitman).

Disfórico: esta fase é caracterizada pela melancolia e amargura. Caeiro se torna muito mais emoção e sensação através de poemas críticos e pessimistas. Esta fase de Campos pode ser vista com clareza em Tabacaria, um poema melancólico e pessimista.

Bernardo Soares não tem a importância de Caeiro, Reis e Campos, mas é ele quem escreve um dos livros mais tristes, profundos e belos de toda a obra de Pessoa, o Livro do Desassossego. Pode-se enxergar Soares como o “eu” escondido de Pessoa, a sua tristeza acumulada e guardada durante tantos anos e sua eterna solidão. “Omar tinha uma personalidade; / eu, feliz ou infelizmente, não tenho nenhuma. / Do que sou numa hora na hora seguinte me separo; / do que fui num dia no dia seguinte me esqueci. / Quem, como Omar, é quem é, vive num só mundo, que é o externo; quem, como eu, não é quem é, vive não só no mundo externo, mas num sucessivo e diverso mundo interno”.

Setembro 3, 2008 Publicado por Natália Alves | CULTURA E LAZER | , , , , , , | Sem comentários ainda

POEMAS DE ÁLVARO DE CAMPOS: OBRA POÉTICA IV

Resenha do livro Poemas de Álvaro de Campos: Obra poética IV – (poesia) – Fernando Pessoa – L&PM Editores (Coleção L&PM Pocket) – 2007

Data: 01/04/08

“O mundo é para quem nasce para o conquistar”

Por: Natália Alves

POEMAS_DE_ALVARO_DE_CAMPOS_1231439160PÁlvaro de Campos é o heterônimo mais excêntrico, abrindo uma premissa para chamá-lo assim, que Fernando Pessoa criou. É caracterizado por três fases que são compreendidas ao ler os poemas deste livro. Os principais heterônimos são: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.


Opiário é o poema que faz parte da primeira fase, a pré-Caeiro. Neste poema Campos mostra suas inclinações poéticas sem influência do mestre de todos os heterônimos, Alberto Caeiro. Para Caeiro a vida é o simples ato de olhar para algo e não pensar nada a respeito. O “não pensar” é a tranqüilidade que nem Pessoa e nem os outros heterônimos conseguiram alcançar.


“Euforia” é a palavra que descreve a segunda fase. Saudação a Walt Whitman é um dos poemas onde Campos demonstra toda sua vivacidade e sua paixão pelo futuro, que são as máquinas, e toda sua admiração pelo poeta Walt Whitman. “E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias, / Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente. / Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste, / Sei que é isso que eu sou,…” (Saudação a Walt Whitman – pág. 99). Nesta fase Campos revela sua ânsia de ser tudo e todos ao mesmo tempo e de experimentar tudo ao seu redor, “Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa, / Conforme me der na gana… Ninguém tem nada com isso… / Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar, / De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,…” (Saudação a Walt Whitman – pág. 103).


A terceira fase é quando Campos começa a olhar, para si e para o mundo, com tristeza e um certo desprezo. Pode-se dizer que os poemas que preenchem esta fase são os mais apreciáveis por se tratarem dos pesadelos internos de um simples homem que apenas assiste sua vida passar e relembra, com ternura e saudade, sua infância. Ou seja, é a fase que descreve a alma humana, “Não sou nada. / Nunca serei nada / Não posso querer ser nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” (Tabacaria – pág.160) — “O mundo é para quem nasce para o conquistar / E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda / que tenha razão. (Tabacaria – pág.162).

Setembro 1, 2008 Publicado por Natália Alves | RESENHAS - livros | , , | Sem comentários ainda