NNOTICIA

INFORMAÇÃO E CULTURA

ANOREXIA E BULIMIA – ÚLTIMA PARTE

Data: 25/09/07


“Rasguem os compêndios, ouçam as pessoas”


Por: Natália Alves


Para entender melhor estes dois transtornos alimentares é necessário saber que existem subdivisões tanto da bulimia quanto da anorexia. A bulimia pode ser purgativa ou não-purgativa e a anorexia pode ser restritiva ou purgativa.

Bulimia purgativa é quando a pessoa come compulsivamente e depois tenta compensar o peso que ganhou induzindo o vômito ou fazendo uso de diuréticos e laxantes. Quem tem a bulimia não-purgativa compensa a ingestão exagerada de alimentos através de exercícios físicos em excesso e jejuns.


Anorexia restritiva é, basicamente, o jejum e a purgativa é quando ocorre a indução do vômito. Mas não se pode confundir anorexia com bulimia. Geralmente as bulímicas objetivam manter o peso ideal para sua estrutura corpórea diferente das anoréxicas que almejam ficar abaixo do seu peso considerado normal. Normalmente as anoréxicas se isolam socialmente e se sentem frustradas por ter uma imagem distorcida do corpo e já as bulímicas têm um convívio social melhor.

O tratamento tanto para a anorexia e a bulimia é efetuado através de uma equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos e nutricionistas, mas há um tratamento diferenciado para cada caso.

Através de uma curta entrevista a psicóloga Joyce Peu esclareceu dúvidas sobre a anorexia e falou sobre o grupo de ajuda “Sinto Muito”. Joyce Peu é psicóloga graduada pela Universidade Mackenzie e especializada em Transtornos Alimentares e Obesidade pelo Instituto de Psicologia do Hospital Central da Faculdade de Medicina da USP. Ela atua em consultório, particular, numa clínica interdisciplinar de saúde mental e, também, atende grupos de pacientes em empresas.

Segue a entrevista:

NNoticia: De acordo com a psicologia quais são as diferenças entre anorexia, bulimia e compulsão alimentar?

Joyce Peu: Existem diversas linhas dentro da Psicologia e cada uma delas tem uma visão específica sobre cada um destes quadros ou, pelo contrário, não os diferencia tal qual é feito na Psiquiatria.

A minha visão é essa. Rasguem os compêndios, ouçam as pessoas!

NNoticia: Quando a anorexia passou a fazer parte da sua vida?

Joyce Peu: Minha memória não é muito confiável. Lembro de ter lido algo a respeito – nos compêndios psiquiátricos! – por volta dos quinze anos.

NNoticia: Você criou um grupo de ajuda o *Sinto Muito que começou sendo um site, correto? Neste grupo meninas com anorexia procuram você para ter um auxílio. Gostaria, primeiro, que você me falasse como surgiu a idéia de criar o Sinto Muito?

Joyce Peu: O “Sinto Muito” começou como um blog pessoal que depois tornou-se comunitário. No “Sinto Muito” do Yahoogrupos não aparecem “meninas com anorexia” – aparecem pessoas (sexo masculino e feminino, de idades variadas) que têm algum interesse nos assuntos que circundam os transtornos alimentares. Eu fazia parte de um grupo virtual sobre transtornos alimentares e, nele, achava inapropriados alguns aspectos. Assim sendo, abri um grupo cujo funcionamento me agradava mais.

NNoticia: No seu blog pessoal você falava sobre transtornos alimentares? Você chegou a passar por este problema?

Joyce Peu: Sim, esse era o tema principal. Sim, eu tive um transtorno alimentar.

NNoticia: E como foi passar por isso?

Joyce Peu: Complexo, dolorido, estruturante. Importante.

NNoticia: Se não for um assunto que chateie você eu gostaria que você contasse um pouco sobre o que você vivenciou com os transtornos alimentares.

Observação pessoal: Após esta pergunta fui surpreendida com uma bateria de perguntas da psicóloga Joyce Peu que parecia que não ia chegar a lugar algum. Mas foi a partir disto que eu passei a compreender os transtornos alimentares e, principalmente, as pessoas que os tem de forma diferente, ou seja, com uma mente mais aberta para enxergar o que está diante dos olhos, mas não é percebido.

Joyce Peu: Conto, sem problemas. Você me ajuda? Por que você acha que uma pessoa tem um TA?

NNoticia: Acredito que, basicamente, é uma excessiva preocupação com a estética. Eu mesma já tive hipoglicemia e desmaiei duas vezes porque eu me achava muito gorda e comia o mínimo possível. Mas não cheguei a ter anorexia e nem bulimia porque eu tenho uma mãe que me deu mó força na época que eu tava desse jeito e me fez comer.

Joyce Peu: Você acredita que basicamente se trata de uma excessiva preocupação com a estética. Aonde foi parar sua excessiva preocupação estética quando sua mãe te deu “mó força” e te fez comer?

NNoticia: Não sei. Mas eu disse que achava que, basicamente, é isso, mas não só isso. Acredito que existem outros fatores.


Joyce Peu: Quais?

NNoticia: Percebi que algumas meninas sentem falta dos pais que são totalmente ausentes. São meninas que precisam de atenção.


Joyce Peu: E quem não precisa de atenção?

NNoticia: Quem tem atenção não precisa dela.


Joyce Peu: E por que precisamos de atenção?

NNoticia: Bom, eu preciso de atenção para me sentir querida, para poder me expressar e falar dos meus sentimentos ao invés de guardá-los só pra mim.


Joyce Peu: E se você não se sente querida, se não pode manifestar o que sente, o que acontece com você?

NNoticia: Fico triste.


Joyce Peu: Triste, sim. Triste como?

NNoticia: Me sinto só


Joyce Peu: E como é o ’sentir-se só’?

NNoticia: Sentir-se vazia.

Joyce Peu: Vazia? Poderíamos chamar um corpo vazio de um recipiente sem conteúdo? Um corpo vazio poderia lembrar um corpo que não se alimenta? Ou poderia lembrar, também, um corpo que tenta se preencher compulsivamente com alguma coisa, com comida, talvez? Comida ou não-comida são alimentos para o “corpo-organismo”, certo? Não acredito que preencham de fato esse “vazio” a que você se referiu há pouco. Em que momento da vida esse cruzamento ocorre? Cruzamento entre comida, vazio e sentir-se querida?

NNoticia: Não sei, talvez quando a pessoa está meio confusa sobre si mesma, sobre a vida, sobre sua identidade. Acredito que o momento onde esta confusão está mais presente é na adolescência.

Joyce Peu: Ah, sim, ótimo. Talvez seja uma explicação válida para que sintomas alimentares apareçam geralmente nessa fase.


NNoticia: Para terminar a entrevista gostaria que você explicasse como era sua rotina quando você tinha TA, pois você elucidou causas pelas quais as pessoas têm os transtornos alimentares, mas não me disse quais foram os problemas que você vivenciou com relação seus hábitos alimentares, sua rotina de vida e como isso a afetou?

Joyce Peu: Eu me sentia gorda e então restringia a alimentação. Quando comia algo que julgava “proibido” eu me sentia horrivelmente culpada, fracassada. Quando faltava na academia era culpa na certa. Minha rotina consistia naquilo que podia ser feito desde que não entrasse em conflito com o que eu achava que podia e não podia fazer com relação à alimentação.


NNoticia: Você chegou a fazer tratamento

Joyce Peu: Fiz. Inicialmente psiquiátrico e psicológico com profissionais não-especializados e depois com equipe interdisciplinar especializada.

* Grupo Sinto Muito do Yahoogrupos: http://br.groups.yahoo.com/group/sintomuitogrupo/

Setembro 3, 2008 Publicado por Natália Alves | SAÚDE | , , , | Sem comentários ainda

ANOREXIA E BULIMIA – PARTE 2

Data: 12/09/07

“Estilo de Vida” ou Doença?

Por: Natália Alves

A pessoa com anorexia nervosa tem uma visão distorcida do próprio corpo, ou seja, pensa que está sempre gorda. A preocupação extrema com o peso e a estética leva os anoréxicos a comerem o mínimo possível. Geralmente, tabelas contendo as calorias de diversos alimentos fazem parte da rotina alimentar. Algumas das conseqüências da anorexia são: desnutrição, interrupção da menstruação, isolamento social e depressão.

Como já citado na primeira parte desta matéria, a anorexia pode vir acompanhada da bulimia como, por exemplo, após o término de um almoço em família o anoréxico vai até o banheiro e força o vômito. Sendo que esta cena fica cada vez mais rara no âmbito familiar, pois o anoréxico prefere levar a comida para o quarto para jogá-la fora sem que os pais percebam.

Holly estuda no terceiro ano do ensino médio, faz cursinho e pretende cursar economia na faculdade. Em uma entrevista, por e-mail, ela falou sobre sua vivência com a anorexia mostrando uma visão diferenciada e também deixou um recado para quem tem este distúrbio alimentar e os pais destas pessoas.

Segue a entrevista:

NNoticia: O que você entende por anorexia?

Holly: Anorexia pode ser entendida de mil maneiras. Eu com cinco anos de experiência de T.A. (transtorno alimentar) aprendi a classificar qualquer pessoa com qualquer “sintoma” em três categorias. A primeira e o que mais se tem (e isso é só em sites de relacionamentos no Brasil) é a ANOREXIA FORÇADA, meninas que ouvem falar de uma comunidade pró-ana no Orkut e ia atrás disso. Se você entrar nessas comunidades você vê tópicos dessas meninas do tipo “QUANTO EU EMAGREÇO SE EU FICAR TRÊS DIAS EM JEJUM?”. Elas estão à caça da doença. Elas duram seis meses, no máximo, no Orkut e “desistem” porque as coisas não funcionam assim. Isso é a conseqüência da mídia, culto a uma beleza autodestrutiva e fator que vem de uma ignorância gigante.

A segunda é a ANOREXIA NERVOSA, que é o transtorno alimentar que a gente conhece, meninas chorando, se mutilando, sem comer, emagrecendo, se vendo gorda e se matando. A maioria que começou com isso nunca tinha ouvido falar sobre isso. Aconteceu comigo e com a maioria das sofredoras de anorexia nervosa. Essa sim é a doença. No meu caso, eu fui internada. O sistema de tratamento pra anorexia nervosa no Brasil é pior que a anorexia em si. Quando a menina não concorda com o tratamento (no meu caso e 85% dos casos no Brasil) eles a “dopam” para não ter vontade própria. Não é ilegal e faz parte do tratamento, mas é desumano. Eu não tinha noção do que tava fazendo, fiquei três meses assim e quando voltei pra casa e parei com os remédios eu não lembrava do tempo na clínica, mas tinha pesadelos com o tanto de remédio que eu tomava. O meu IMC (índice de massa corporal) foi de 16 (anoréxico) para 25 (obeso leve). E ainda fiquei mais quatro meses comendo e comendo ate passar mal só pelo medo de ser internada mais uma vez. Depois comecei a perder o medo de perder peso de novo e comecei a estudar isso, dai aprendi o que virou a ANOREXIA SUSTENTÁVEL. Aprendi que é possível ter um peso anoréxico sem se matar. Comecei a perder peso devagar comendo bem menos que o recomendado (100 kcal quando o recomendado era 1200 pra quem quer perder peso), porém suprindo todos os nutrientes, minerais e vitaminas. Tinha a tabela do número de gramas que eu tinha que comer, tabelas com todos os valores nutricionais dos alimentos. Começou a dar certo, fui atrás dessa coisa de comunidade pró-ana num site de relacionamento canadense. Aprendi muito, e fui pro Orkut.

Hoje no Orkut, sempre que conheço uma menina (recebo uns quatro convites de amizade por dia) tento descobrir em que caso a menina se encaixa. Seis meninas foram o número de meninas que eu ajudei que chegaram já no peso que querem, sem complicações, sem doenças, sem problemas no coração, fígado e sem faltar nutriente. Vinte e dois é o número de meninas que eu to ajudando agora.

NNoticia: Você citou que já teve anorexia nervosa. Gostaria que você falasse um pouco como era a sua rotina de vida nesta época, com relação a seus hábitos alimentares, e também se você chegou a ter bulimia?

Holly: Bulimia nervosa não, mas forçava vômito sempre que alguém me fazia comer. Mas não tinha aquela coisa de ter uma compulsão e comer tudo e me trancar no banheiro para vomitar.

NNoticia: Foi você quem decidiu fazer um tratamento ou foi obrigada? E como foi seu tratamento?

Holly: Fui obrigada. A clínica era do tipo “Nós confiamos em você até que você prove o contrário”. Eu tinha minhas vitaminas pra tomar, minhas barras de cereais pra comer. Uma vez falei pra minha enfermeira que não conseguia comer as barras do almoço de uma vez e pedi pra dar uma mordida de uma em uma hora, ir comendo durante o dia. Ela falou que não, porque se você comer menos de 60 kcal com distância de, pelo menos, uma hora da última vez que você comeu as calorias são gastas na digestão, ou seja, são insignificantes. Então comecei a comer de mordida em mordida pra não engordar. Quando descobriram mudei de andar e fui para a ala dos Casos Graves, onde eles me tratavam com cápsulas em vez de comida (cápsulas de gordura, proteína e vitamina). Uma hora meu corpo começou a rejeitar e eles tiveram que sedar uma parte do sistema nervoso, então os últimos três meses eu passei quase inconsciente.

NNoticia: Como é sua relação com seus pais?

Holly: Eles exigem de mim algo que eles consideram “normal” de uma pessoa. Eu odeio essa coisa de normal. Eles devem rezar todos os dias pedindo que Deus me ilumine e ponha juízo na minha cabeça. Pra eles essa coisa de anorexia é coisa que eu vi em revista, ou filme, e acho que é “legal” ter uma doença e chamar atenção, eles não entendem que alguém possa achar isso bonito.

NNoticia: Vi, no Orkut, que você criou uma comunidade sobre anorexia, *“12 steps for anorexia”. Você tem outras comunidades ou páginas na Internet como, por exemplo, blog com este mesmo tema?

Holly: Eu tenho uma comunidade onde as meninas abrem diários e postam diariamente o que comeram, o que fizeram e eu vou ajudando com dicas pra elas perderem peso sem se matar de vez. Tenho uma comunidade sobre dietas, moda, fofocas de celebridades e receitas, mas nessa comunidade a palavra “anorexia” nunca apareceu, ela é uma comunidade mais pra todo mundo.

NNoticia: Sofre ou já sofreu preconceito por parte de familiares ou amigos?

Holly: Sim, para eles tudo que eu queria, e quero, é atenção, mas nunca me preocupei em me explicar. Se as coisas saírem do controle sei que tenho eles para me avisar. Se eu tiver com aparência exagerada, desmaiando ou me matando eles vão sempre falar: CHEGA. Então eu gosto do fato deles não “entenderem”, é bom ter alguém pra te mostrar o outro lado.


NNoticia: Voltando a falar da sua comunidade “12 steps for anorexia”, há um link que ao clicar abre uma página com doze tópicos que ensinam e incentivam as meninas a chegarem na anorexia ou se manterem nela. Como você já citou acima, você explica a essas meninas a se manterem na “anorexia sustentável”. Três tópicos me chamaram a atenção e são eles:

03. Ter ana como um estilo de vida, e não doença. E acreditar fielmente que essa foi a melhor “escolha”.

Enquanto a grande maioria das pessoas vê a anorexia como doença você a classifica como estilo de vida. Não seria uma forma deturpada de perceber a doença? Não é perigoso se manter, segundo suas palavras, na “anorexia sustentável”?

Holly: Na verdade não. A pessoa que atinge a “anorexia sustentável” é a magrela pro resto da vida. O perigo ta na doença, se você levar como um “estilo de vida” e não uma doença você se focaliza em alcançar o equilíbrio e o bem estar e não se permite ir a extremos como uso crônico de laxantes nem compulsões alimentares. É como se tirasse todo o valor da vida dela nesse negócio de emagrecer.

08. Faça uma lista de coisas a fazer quando estiver alcançado sua meta. Faça planos de alguns dias de nf e lf. Coloque tudo em prática.

O que é NF e LF?

Holly: NF é jejum. O jejum não é ficar sete dias sem comer e depois comer. Você vai diminuindo a quantidade de comida durante uma semana até chegar a zero, fica três dias no máximo com água e dai devagar vai voltando a comer. É um tratamento que usam em várias clínicas de desintoxicação de drogas, álcool e etc. Desintoxica de todas as toxinas, inclusive as dos alimentos industrializados. Usamos NF (No Food) em vez de Jejum porque no Orkut está mais banalizado.
LF é Low Food. Isso é diário: marcar calorias e comer apenas elas. Vai de 50 a 400 no máximo, mas tem gente por ai que conta 600. Isso é pra quem quer emagrecer pro peso ideal, não anoréxico. O mais “famoso” é o LF de 200 kcal.

10. Como você se controla, percebe que não precisa de comida.

Por que não ter um corpo bonito e saudável através de uma alimentação saudável ao invés de estar sempre fazendo dietas e o tempo todo controlando calorias e quantidades?

Holly: Quando você fala de beleza é relativo. O que é bonito para uns, para os outros não é, não é por isso que se tem esse interesse de saber por que queremos ser magras ao extremo? Vocês acham feio, nós não. Alimentação saudável é relativo igual. Alimento é combustível e só devemos comer o que precisamos. Não corremos risco da comida acabar, não precisamos estocar comida. Comemos para viver, não vivemos para comer. E não precisamos de 2.000 calorias diárias, isso não é saudável.


NNoticia: O que você espera alcançar com a anorexia?

Holly: Meu corpo do jeito que eu gosto de volta.

NNoticia: Para terminar gostaria que você deixasse uma mensagem para as pessoas que estão passando por tudo que você já passou e ainda passam. E também uma mensagem para os pais dessas pessoas.

Holly: Para quem passa por isso, pergunte-se “por quê?”. Não faça isso por pressão alheia, para chamar atenção ou porque acha que é “cool”, e se no final você ainda quiser continuar faça as coisas direito: nada de desmaios, anemia ou quaisquer complicações médicas. Pesar pouco é fácil, se levantar pesando pouco é o desafio.

Pais: com o tempo seus filhos vão ou desistir ou alcançar um equilíbrio, não interfiram, eles precisam enfrentar sozinhos, mas qualquer sinal de complicação na saúde vão ao médico e tratem disto clinicamente e nada de psicólogos, ou vocês terão filhos com pulsos cortados e cada vez mais “rebeldes”.

ERRATA:

Na primeira e na segunda parte desta reportagem, sobre anorexia e bulimia, foi citado que uma pessoa pode ter anorexia e bulimia ao mesmo tempo, mas de acordo com a psicóloga Joyce Peu isto não é possível, pois “é “comum” um anoréxico desenvolver bulimia ou compulsão alimentar. Quando isso ocorre, ele sai do quadro de anorexia” (Joyce Peu).

Devido à troca de página para categoria os comentários da página Saúde foram apagados junto com a página, mas os copiei e colei aqui:

1 - Posso ser um pouco chata?

“Como já citado na primeira parte desta matéria, a anorexia pode vir acompanhada da bulimia como, por exemplo, após o término de um almoço em família o anoréxico vai até o banheiro e força o vômito.”

Não, anorexia não pode vir acompanhada de bulimia. Acredito que você tenha feito referência a um subtipo de anorexia – a purgativa. Bulimia e anorexia são quadros excludentes. Um indivíduo não pode ter anorexia “E” bulimia; ou tem um quadro, ou tem o outro. Pode, sim, ter um quadro por um período e, noutro período, ter o outro. Os dois juntos NEVER. É “comum” um anoréxico desenvolver bulimia ou compulsão alimentar. Quando isso ocorre ele sai do quadro de anorexia – óbvio – e, portanto, não pode mais ser dito que ele seja um anoréxico. \o/

Comentário de Joyce Peu |

2 - “O sistema de tratamento pra anorexia nervosa no Brasil é pior que a anorexia em si.”

Concordo!

“Quando a menina não concorda com o tratamento (no meu caso e 85% dos casos no Brasil) eles a ‘dopam’ para não ter vontade própria. Não é ilegal e faz parte do tratamento, mas é desumano.”

(Sei que se trata da opinião da moça, mas vou comentar.) Desconheço o dado dos 85%. Foi no chutômetro? Bah, não importa. “Dopar” a paciente para que ela não tenha vontade própria é uma maneira bastante agressiva de compreender o tratamento mas, infelizmente, tem seu quê de realidade. Vou exemplificar: uma equipe recebe um menor trazido pelos pais em estado grave de desnutrição. O tal paciente não colabora com a realimentação, tem comportamentos auto-agressivos, mutila-se. A equipe é responsável por aquele menor enquanto ele estiver no hospital. Se ele cortar um dedinho, certamente os pais dele não vão gostar. O “hospital” pode ser processado. Se ele morrer porque a equipe respeitou a vontade dele – de não se alimentar, digamos -, e aí? Desumano (nas palavras da moça) é tratar ou não tratar? O compromisso da equipe é com a vontade anoréxica do paciente ou com a manutenção da vida dele?

Comentário de Joyce Peu

3 - “Pais: com o tempo seus filhos vão ou desistir ou alcançar um equilíbrio, não interfiram, eles precisam enfrentar sozinhos, mas qualquer sinal de complicação na saúde vão ao médico e tratem disto clinicamente e nada de psicólogos, ou vocês terão filhos com pulsos cortados e cada vez mais ‘rebeldes’.”

Existe a possibilidade de os filhos morrerem também… ou de ficarem com seqüelas pro resto da vida. Acho difícil que um pai e uma mãe não queiram “interferir”. Rá, e não entendi o porquê do “nada de psicólogos”. Eu, até hoje, não cortei o pulso de nenhum paciente. =D

Comentário de Joyce Peu

4 - Natalia ficou muito boa a reportagem, colocou tudo certo, mostrou todos os lados. Os 85% eram na época que eu fui, e tinha acabado de sair um estudo das doenças no Brasil, e sim 85% dos internados por T.A. no Brasil tinham sido obrigados. E sobre nada de psicólogo, eu falo pq psicologia não cura a pessoa, nem ajuda ela a perceber nada. Discutir o que a pessoa acha sobre o T.A. só faz vir a depressão. Se o problema eh psicológico a pessoa precisa de amor dos pais, carinho, paciência. Minha opinião.

Comentário de Holly

Setembro 3, 2008 Publicado por Natália Alves | SAÚDE | , , , , | 6 Comentários

ANOREXIA E BULIMIA – PARTE 1

Data: 5/09/07

Bulimia = “Doença da Alma”

Por: Natália Alves

Em novembro de 2006 duas mortes por anorexia chamaram a atenção da mídia e foi quando os transtornos alimentares passaram a serem pautas de matérias de revistas, jornais e reportagens de televisão, chegando a ter espaço nas capas das revistas Época, Veja e Istoé. A bulimia chegou a ser retratada na novela Páginas da Vida, da Rede Globo, com a personagem Gisele que comia de forma compulsiva e depois forçava o vômito e, também, escondia comida debaixo da cama. Mas apesar deste assunto estar, atualmente, um pouco distante da mídia ainda há muitas meninas e meninos que enfrentam as conseqüências destes transtornos alimentares.

A bulimia é, basicamente, a ingestão excessiva de alimentos, principalmente doces, seguida do vômito forçado. É comum a pessoa que tem bulimia fazer uso de diuréticos e laxantes de forma indiscriminada. Uma pessoa pode ter anorexia e bulimia ao mesmo tempo, pois a bulimia pode surgir com a evolução da anorexia. Tanto a anorexia quanto a bulimia têm sintomas que podem ser percebidos e conseqüências graves e, claro, tratamento específico, mas o leitor vai poder conhecer melhor sobre a Ana e a Mia (nomenclatura dada à anorexia e bulimia na Internet), através das entrevistas feitas com meninas que já passaram e ainda passam por estes problemas.

Miss Mia tem dezoito anos, cursa o terceiro ano do ensino médio, mora em São Paulo e tem bulimia há, mais ou menos, cinco anos. Através de uma entrevista, por MSN, ela contou como foi que a bulimia tornou-se presente em sua vida, falou sobre seu relacionamento com seus pais, sobre o tratamento que faz, como está hoje em dia e deixou um recado para quem tem bulimia e para os pais destas pessoas.

Segue a entrevista:

NNoticia: O que você entende por bulimia?

Miss Mia: Bulimia pra mim hoje é uma doença, algo que eu não escolhi ter, mas que tive sem querer ou planejar, algo que hoje atrapalha minha vida. Por um lado me faz bem por outro muito mal. Bem porque me acalma, me faz achar que tenho um controle que, na verdade, é falso, mas me da essa sensação. Mas ruim porque detono minha saúde e meu emocional também fazendo coisas que sei que são prejudiciais, mas quando penso em parar sei que não consigo.
Um dia escrevi isso: realidade, ilusão, calma, desespero, dor, alívio, cansaço, solidão, vazio, confusão, controle, melhor amiga, pior inimiga, pró, contra, viver, sobreviver todas as faces de uma doença, de uma vida, de um estilo de vida, estilo de vida?

NNoticia: Quando você percebeu que algo estava errado? Percebeu por si mesma ou alguém te ajudou?

Miss Mia: Por mim mesma. Vi que vomitar tanto como vomitava não era normal e descobri a bulimia, mas ao invés de procurar ajuda virei pro Ana e me afundei um pouco mais.

NNoticia: Então você também passou por uma fase de anorexia?

Miss Mia: Não, não. Quando digo que virei pro Ana, na verdade, eu era pro Mia, já que nunca tive Ana, mas sim sempre Mia. Apesar de, às vezes, fazer uns jejuns prolongados, mas não tenho anorexia os jejuns são da Mia também.

NNoticia: Quais foram os primeiros sintomas da bulimia?

Miss Mia: Foi há cinco anos, os vômitos e a preocupação excessiva com meu corpo.

NNoticia: Nessa época que você começou a perceber que estava doente como era sua relação com seus pais? Eles te ajudaram e ainda ajudam? Conseguem entender o seu problema?

Miss Mia: Bom, percebi que estava doente, ai doente não, mas que tinha uma dificuldade com isso, eu acho, já faz tempo, que me lembro vagamente. Minha mãe descobriu quando a diretora da escola descobriu, ligou pra ela e contou. Ela não me ajuda nada, nada nisso, pelo contrario. Meu pai sabe, mas faz de conta que não. Falamos uma vez disso e me prometeu mil coisas, que viria em Ribeirão (onde moro) falar com os médicos (quando comecei a me tratar), mas nunca mais tocou nesse assunto. Minha relação com eles é distante e complicada, moro com minha mãe, brigamos muito e não somos próximas e meu pai não vejo há um ano, mas falo com ele, de vez em quando, por tel ou Internet.

NNoticia: Hoje em dia você ainda tem bulimia?

Miss Mia: Tenho sim, acho que na minha pior fase, mas me trato no Hospital das Clinicas GRATA (Grupo de Atendimento a Transtornos Alimentares) tratamento especializado, me trato há três anos lá.

NNoticia: Você chegou a fazer uso incorreto de remédios como, por exemplo, laxantes e diuréticos?

Miss Mia: Tomo muito. Tava falando agora pra minha amiga que em um mês quebrei meu recorde, 63 comprimidos de laxante. Diurético não tenho coragem, por enquanto né. Um amigo quase morreu por problemas no rim.

NNoticia: E esse uso excessivo de remédios nunca lhe trouxe problemas com sua saúde?

Miss Mia: Ainda não. Comecei com os laxantes no início do ano

NNoticia: Sente falta dos seus pais nesta fase da sua vida?

Miss Mia: Com certeza, apoio é fundamental nessa hora, mas já que não tenho. Apesar de que minha mãe não ajuda, mas atrapalha bem.

NNoticia: Por que ela atrapalha?

Miss Mia: Me xinga e já me bateu por causa disso. Não acredita, e acha que por eu ser evangélica é um absurdo ter isso, diz que faço isso por graça. É meio cruel nossa relação.

NNoticia: Além dos problemas que tem com sua mãe você sente preconceito por parte de familiares e amigos?

Miss Mia: Não, não. Pelo contrario, amigos são demais comigo nessa área sempre entendendo as coisas, graças a Deus.

NNoticia: Você já teve ou tem depressão?

Miss Mia: Tenho, tomo antidepressivo. Tenho transtorno de personalidade bordeline.

NNoticia: O que é isso?

Miss Mia: Sou impulsiva demais e me apego demais às pessoas. O border tem um sentimento de insatisfação muito grande sempre quer algo, mas quando o tem perde a graça nunca está satisfeito, sabe.

NNoticia: Gostaria que você fizesse uma breve explicação de como funciona o tratamento que você faz?

Miss Mia: Psicologia duas vezes por semana (individual), terapia em grupo com as outras pacientes, tenho meu psiquiatra, a médica e a nutricionista. Agora nesse semestre vai começar terapia ocupacional

NNoticia: O que é terapia ocupacional?

Miss Mia: Nunca fiz, mas é tipo fazer bijuteria, pintura, artesanato e ter uma psicóloga perto fazendo comigo e conversando, entende. Mais ou menos isso.

NNoticia: Por que essa grande preocupação com a estética? Por que ser muito magra?

Miss Mia: O que adianta ter um rosto bonito como o meu e ter um corpo tão gordo, NADA!!! E porque as pessoas magras sempre são mais felizes, mais bem sucedidas, mais amadas, queridas e bla, bla bla.

NNoticia: Você não acredita na famosa frase de que vale mais o que a pessoa tem por dentro do que o que tem por fora?

Miss Mia: Lógico que é muito importante eu ser linda por dentro. De que adianta por fora bela viola por dentro pão bolorento, mas sei que por dentro sou uma pessoa linda, tenho um coração disposto a ajudar as pessoas e sou amorosa, mas preciso ser magra pra ser feliz entende. Sei que isso é muito além sabe, isso é o que minha cabeça acha, mas meu emocional faz isso por outros motivos. Bulimia e anorexia não são doenças simples tipo, a pessoa tem porque quer ser magra, é muito além.

NNoticia: Vamos falar sobre seu blog. Como foi que surgiu a idéia de fazê-lo e qual é o objetivo dele?

Miss Mia: Nossa, o blog é antigo hein, nem posto mais nele, mas foi numa época em que todas as pro Ana – Mia tinham, era onde eu desabafava e pessoas como eu liam e me entendiam, nem sempre todos né, mas a grande maioria me dava forças. Nunca tive objetivo de influenciar garotas a serem pro Ana – Mia, quando elas entravam pra me pedir conselhos de como ser uma eu sempre dizia que não as ajudaria, pois aquilo eu não havia escolhido e era pro Ana – Mia porque dava uma mascarada na doença (hoje vejo assim) pra dor ficar menos intensa sabe.

NNoticia: Para terminar gostaria que você deixasse uma mensagem para as pessoas que estão passando por tudo que você já passou e ainda passa. E também uma mensagem para os pais dessas pessoas.

Miss Mia: Bom, para as meninas que têm eu gostaria de dizer que sei que não é nada fácil tudo isso, é um misto de vontade de se curar com de desistir e se afundar mais na doença, uma doença que nos engana, pois o errado que fazemos achamos que é o certo e o certo que fazemos sentimos uma angústia tão grande como se fosse o mais errado, mas que apesar de tudo isso, de tanta dor, de tanto choro, tudo tem uma solução, existe um fim para tudo isso, existe um interruptor onde acende a luz que tira toda essa escuridão. Nesses momentos precisamos ter ao nosso lado pessoas que nos amem e cuidem de nós, mas o mais importante e essencial é termos nossos olhos firmados em Deus, pois só ele para nos tirar disso tudo e dar um fim em toda essa dor.

Para os pais: Sei que não é fácil para vocês terem alguém com TA dentro de casa ou convivendo junto, mas apoio nessa hora é essencial. Você já perguntou hoje para sua querida (o) com TA como ela está se sentindo? Já a abraçou e disse o quanto a ama, independente, do que tenha ou de como seja? Ter um apoio, alguém onde se possa confiar e que não irá julgar ou machucar mais é importantíssimo. Não julgue, não pense que é sem vergonhice, graça, modinha de novela nem nada, isso realmente é uma doença, uma doença da alma, talvez pior que uma física. Seu querido só precisa de amor, de ser cuidado e não mais machucado, trate o com amor, seja alguém que ele pode confiar que você vai ver como ele melhora rapidinho.

Obs: TA = transtorno alimentar

Devido à troca de página para categoria os comentários da página Saúde foram apagados junto com a página, mas os copiei e colei aqui:

1 - Natalia … parabéns querida! a matéria ficou ótima! amei! tudo que eu disse está aqui, do jeitinho que disse,do jeitinho que senti …
É mtu bom ter oportunidade de poder dar minha opinião e falar no meio de tanta baboseira que é dita por aí!
Obrigada de verdade pela oportunidade!
Bjus

Comentário de Miss Mia

2 - Natália, parabéns pela matéria!! Muito bem desenvolvida, inteligente e atual!!
Cheguei a me emocionar no final da entrevista, quando a “Miss Mia” diz que os queridos têm que ser tratados com amor…não tenho bulimia ou anorexia, mas sou TA e sei bem o quanto é difícil…
Continue assim!!
Beijos

Comentário de Lívia

3 - natalia- gostei muito da materia, inovadora e atual.
gostei da forma publicada, sem correcoes e do jeito que a entrevistada colocou seu problema.
Fica assim um papo de amiga, muito bom me indentifiquei muito com a materia.
Ultilidade publica

Comentário de juliana

Setembro 3, 2008 Publicado por Natália Alves | SAÚDE | , , , , , | 2 Comentários