“COMO UM ANJO CRUEL, JOVEM, TORNE-SE UMA LENDA”
Resenha do animê Neon Genesis Evangelion – (drama-ação) – Hideaki Anno (diretor) / Sadamoto Yoshiyuki (autor e arte, mangá)
Por: Natália Alves
O animê Neon Genesis Evangelion é ambientado após o Segundo Impacto. Este acontecimento foi ocasionado por um Angel (Anjo), seres orgânicos que possuem uma extrema força e grande capacidade de se evoluir e também de se regenerar. O Segundo Impacto causou a morte de centenas de humanos e transformou a Antártida em um local tomado por larva, um verdadeiro inferno no mundo terreno.
A organização SEELE criou a NERV, que se tornou de responsabilidade de Gendo Ikari. O objetivo da NERV é exterminar todos os Angels que invadem o território humano para evitar a ocorrência de um terceiro impacto, que acabaria com a existência humana. Para ajudar nesta tarefa foram criados os Evangelions (Evans), grandes máquinas que têm a força comparada a de um Angel e são controlados por crianças. Só para entender melhor a hierarquia: Gendo Ikari controla a NERV, é ele quem controla todos os procedimentos dos cientistas que trabalham na organização e é ele quem decide o destino dos EVA’s e das crianças, mas Ikari deve explicações à organização SEELE, que controla a NERV.
Não é qualquer criança que pode controlar um Evangelion. As crianças são avaliadas por suas características e habilidades, crianças que conseguem ter quase uma perfeita sincronia com os EVA’s e é preciso que tenham nascido após o Segundo Impacto e que tenham 14 anos. As três crianças responsáveis por salvar a humanidade dos Angels são: Rei Ayanami (piloto do Eva 00), Asuka Langley Soryuu (piloto do EVA 02) e Shinji Ikari (piloto do EVA 01 e filho de Gendo Ikari).
Rei Ayanami é uma criança introvertida, não tem amigos, não costuma falar muito e faz tudo que lhe é ordenado. Ela possui certa afeição por Ikari, o que gera uma sensação estranha, pois Ayanami demonstra não possuir sentimentos.
Asuka é filha de pais adotivos, morava na Alemanha antes de ir para a sede da NERV, em Tokyo-3. É uma menina muito falante, extrovertida, mimada e que possui uma grande autoconfiança, exatamente o oposto de Ayanami e Shinji.
Shinji assemelha-se a Ayanami, pois também é introvertido e no início do animê não possuía nenhum amigo, mas ao entrar na escola, onde a NERV o coloca, ele acaba fazendo amizade, o que o difere de Ayanami, que mesmo estudando no mesmo colégio continua solitária. Mas Shinji é um garoto que vive em uma constante crise existencial. Acredita que as pessoas não o admiram e luta o tempo todo para que o valorizem, é como se ele não tivesse motivos para existir sem ter o reconhecimento dos outros.
Outros personagens importantes vão aparecendo durante o desenrolar do enredo, mas não poderia deixar de falar de Misato Katsuragi. Misato é comandante das operações da NERV e se coloca a disposição para tomar conta de Shinji, que passa a morar com ela em seu apartamento. Ao contrário de Shinji, ela é bem-humorada, gosta de falar e adora uma cerveja, mas é extremamente firme e responsável quanto a seu trabalho.
Este animê não é apenas limitado em cenas de ações e lutas, é muito além disto. São 26 episódios e até, mais ou menos, a metade o espectador pode ficar um pouco entediado e achar que não há nada de interessante que o animê possa transmitir. Mas, aos poucos, perguntas são deixadas no ar e começa a se criar um mistério que prende a atenção até o último episódio.
A impressão que esta história deixa é que seu objetivo era tratar a existência da humanidade, suas falhas e suas ambições. A comparação de homem com Deus é citada durante vários episódios e a luta existencial de cada indivíduo, em busca de um motivo racional para suas ações e em busca de sua identidade, é relatada massivamente nos últimos episódios e, principalmente, nos dois últimos.
A principal conclusão que se pode ter ao terminar de assistir este animê é que nós humanos somos solitários e estamos em uma infinita busca de nos completar através do outro e de nos entender e nos aceitar como somos, ou seja, somos seres incompletos. Termino esta resenha com algumas frases ditas pelo último Evangelion que invadiu a Terra: “Se não se aproximar dos outros, não será traído e nem machucará ninguém. Porém, nunca vai conseguir esquecer a solidão.” (dilema do ouriço)
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
Resenha do livro A Insustentável Leveza do Ser – (ficção-drama) – Milan Kundera – Companhia das Letras – 2007
Data: 21/04/08
Insustentavelmente Pesado
Por: Natália Alves
Diversas questões são abordadas no livro e todas convergem para um ponto em comum, a dualidade entre o peso e a leveza. É através da história de quatro personagens principais que o roteiro se desenrola e entra na vida do leitor.
A traição é o ponto que atrai as histórias dos quatro personagens. Tomas é um homem bonito, médico, tem um filho e uma ex-mulher. Após o término de seu casamento decidiu ter uma vida mais leve, não se comprometia com nenhuma mulher. Gostava de ter relações com várias mulheres sem envolver-se emocionalmente. Para ele, este estilo de vida era a sua leveza que não o permitia ter problemas de questões amorosas, o que seria um fardo (peso) para ele.
Mas após conhecer Teresa sua vida muda, mas não totalmente. Ele se sente ligado emocionalmente à Teresa e passa a viver com ela, mas não consegue se livrar de seus antigos hábitos. “Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes, mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher).” (contracapa)
Teresa ama Tomas e não se imagina vivendo sem ele, mas suas traições a puxam para um profundo vazio. Mas não é apenas Tomas que tem a traição em seu histórico de vida. Teresa morava com a mãe e seu padrasto. Odiava tudo que era relacionado a mãe, principalmente, o seu modo de se comportar diante dos outros e o modo como expunha seu corpo sem pudor. O que mais Teresa desejava era trair tudo que sua mãe lhe ensinou e esquecer totalmente a vida que teve. Mas, para isto, precisava de Thomas.
Sabina é pintora e tem uma relação duradoura com Tomas. Duradoura sim, mas sem emoções envolvidas. Sabina era semelhante a Tomas, pois assim como ele não se permitia envolver-se profundamente com outra pessoa, ela também não se permitia. Ao conhecer Franz ela percebe que seu estilo leve de viver está ameaçado. Franz é casado e trai a mulher com Sabina. Os dois são bem diferentes no modo de pensar e de agir, mas existe um ponto comum, a traição. Sabina repugnava a idéia de fidelidade, pois se lembrava de seu pai puritano e da mesma forma que Teresa renegava a mãe, Sabina renegava o pai e sua família.
Além deste ponto comum que liga todos os personagens outros aspectos são abordados como, o eterno retorno de Nietzche, a compaixão, o Kitsch e a opressão de uma época de invasão. Todo o enredo ocorre durante a invasão russa à Tchecoslováquia, tendo como principal localização a cidade de Praga.
“Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões, são mais leves que uma pluma, já não provocam medo. Existe uma diferença infinita entre um Robespierre que apareceu uma só vez na história e um Robespierre que voltaria eternamente para cortar a cabeça dos franceses”. (pág. 9) / “Antes de sermos esquecidos. Seremos transformados em Kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.” (pag. 314)
O que parece ser leve torna-se insustentavelmente pesado de se manter. A vida que Tomas julgava ser leve tornou-se pesada quando ele percebeu que havia se tornado escravo de uma situação, da qual, queria se ver livre para poder fazer feliz a mulher que amava. A traição à mãe que Teresa tanto objetivava só tornou seu caminho pesado por angústias e rancores.
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