OPOSTOS
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Meus olhos estão fechados
Seus olhos estão abertos
Meu destino está em seu olhar
Minha vida depende do seu sorriso
Lá fora o sol está frio
E você está longe
Sua frieza me prende em seu corpo.
Nossas vidas se perdem
Em um horizonte de lágrimas
Não conseguimos nos encontrar
A escuridão nos afasta
O azul em seus olhos me congela
Seus pesadelos são reais em meus sonhos.
A sua vida é o meu alimento
Suas palavras são pensamentos perdidos
Meu mundo não é
O mesmo que o seu
Seu divertimento é incompreensível para mim
Os seus dias são as minhas noites
A sua saída a minha prisão.
Natália Alves
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ESPERO
Quando você disse adeus
Eu disse que ia te esperar
Quando você chorou
Eu não deixei as lágrimas cobrirem sua vida
Quando você sorriu
Meu coração bateu tão forte que você pôde senti-lo
Quando tudo deu errado
Eu soube que meu único desejo era te abraçar,
Mas quando eu disse adeus
Você fechou os olhos para mim.
Ainda espero por você
Conto os dias, as horas e os segundos
Para ouvir sua voz
Ainda espero ouvir você me chamar
Sua voz está em todo canto dos pássaros
Que voam no horizonte sem fim
Ainda enxugo suas lágrimas quando não me permito chorar
Espero e vou esperar sempre seus olhos abrirem novamente para mim
E quando você disser adeus
Eu vou estar ao seu lado.
Natália Alves
EU DIRIA
Fico cada dia mais velha
E penso o que faço da minha vida?
O que minha vida significa?
O que todos estes anos que se passaram escondem?
Não posso mais consertar o que passou
Porque simplesmente passou
Passou e passou.
E eu não vi
E eu não segurei
Tantos momentos que tentem guardar em uma foto
Tantas felicidades que as imagens revelam,
Mas não consegui guardar em meu coração.
É incrível como a vida é tão descartável
É incrível como esquecemos rápido demais
Ah… se eu pudesse voltar
Olharia para mim mesma
E diria para eu me amar mais
Para eu apenas ser
Para que pensasse menos e sorrisse mais
Para perceber o mundo e as pessoas
De forma superficial
Porque ninguém me enxergou
E ninguém enxerga ninguém
Somos todos invisíveis
Somos apenas algo em meio a milhares de “algos”
Somos nada no meio de um abismo
Então eu diria
Então eu diria
Que se danem os humanos!
Natália Alves
MUNDOS
Estou perdida
Não consigo entender
O que está acontecendo,
As pessoas não querem
Enxergar o que é real
Elas se escondem
Em seu mundo de fantasias,
Estamos nos tornando selvagens.
O tempo passa
E nossas vidas
Vão embora
Sem podermos ser felizes,
Não existe compreensão.
Esse mundo
É feito de loucuras
O ódio prevalece
As pessoas se escondem
Debaixo de seus medos
E abaixam a cabeça
Para as suas vidas,
Somos enganados
E acreditamos no inexistente
Para podermos acreditar
Em um mundo melhor.
Ás vezes desistimos
Aceitamos calados
Somos feitos de palhaços
E rimos do nosso azar.
Superstições são criadas
Coisas são inventadas
Absurdos são ditos
E acreditamos em tudo.
Tentamos viver
Nesse mundo de hipocrisia
E afundamos sem querer
E sem pedir
Estamos fazendo parte
De um mundo de aparências
E suportando uns aos outros.
Natália Alves
GOSTARIA DE SER
Gostaria de ser uma borboleta
Para poder voar entre os lírios a procura do seu perfume
Abrir minhas asas e deixar o horizonte me guiar até o infinito do seu olhar
Perder o rumo entre os rios que correm em seus olhos quando chora
Sentir as flores da primavera em meu corpo ao sentir seu corpo no meu
Percorrer milhares de campos a procura da sua voz
Voar e voar até o mais longe que puder apenas para me sentir mais perto de você.
Gostaria de ser um beija-flor para poder beijar seus lábios e sentir o sabor do mel
Passar para você toda a alegria das minhas diversas cores
Poder entrar em sua vida e ser vista com carinho.
Gostaria de ser uma flor para abrir meu coração toda primavera e enfeitar o seu coração
Poder espalhar meu aroma por todo o seu caminho
E ter o seu toque nem que seja apenas durante a primavera.
Gostaria de ser um coração desenhado em um papel
Para poder dizer eu te amo sem dizer nada
Tocar seu coração apenas com minha imagem.
Gostaria de ser algo que não sou
Apenas para poder te amar para sempre
Apenas para ter você para sempre ao meu lado.
Natália Alves
I WISH I WERE – English version
FERNANDO PESSOA – PARTE 1
Data: 02/12/07
O POETA DOS HETERÔNIMOS
Por: Natália Alves
Segundo o próprio Fernando Pessoa um poeta é um simulador, um criador de ilusões. Pessoa foi um ser humano tomado de uma suprema inteligência que, devido a isto, encontrou a necessidade da despersonalização.
Não há como separar Pessoa de seus heterônimos, pois apesar de cada um deles ter uma história de vida ficcional, criada por ele, não podem ser considerados personagens de um drama no qual eles não têm ligação com o autor, pois são os próprios heterônimos que “escrevem” os poemas, ou seja, não são personagens que são descritos por um autor e ganham vida própria em uma peça teatral ou uma história dramática, eles são os autores e por isso estão intimamente ligados a Pessoa.
Pessoa encontra em seus heterônimos a possibilidade de viver pensamentos e vidas que ele não tinha e não se permitia ter. Através de Alberto Caeiro ele pára de tentar compreender o mundo e esquece todos os seus questionamentos e sentimentos para simular viver uma vida simples, onde o que importa é apenas enxergar e mais nada. Com ele o mundo descomplica-se e não há nada além do que é visto. Não existe a alma, não existe o algo a mais para compreender ou decifrar porque está tudo ao alcance da visão e a vida é mais tranqüila e homogênea. Já com Álvaro de Campos, Pessoa vive de forma mais audaciosa e libertadora, era com ele que Pessoa escrevia de forma mais chocante e impulsiva diferente do modo mais moderado que o ortônimo Pessoa escrevia, por exemplo, na revista Presença (1927 – 1940).
Apesar de Pessoa não ter os mesmos pensamentos que seus heterônimos e discordar deles em diversos aspectos, ainda sim eles representavam um Pessoa que ficava preso dentro de si e que via a oportunidade de aparecer através das simulações. “Sou, porém, menos real que os outros, menos coeso, menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos. Sou também discípulo de Caeiro…” (Orpheu 2).
Os Heterônimos
Alberto Caeiro é o mestre de todos os heterônimos e também de Fernando Pessoa. Para definir Caeiro em poucas palavras basta dizer que ele é simples, indiferente e natural. “E ao lerem os meus versos pensem que sou qualquer coisa natural” (O Guardador de Rebanhos – I) / “O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum” (O Guardador de Rebanhos – V).
Pastor de seus próprios pensamentos, ou seja, seu rebanho, Caeiro existia no mundo sem desejos e propósito, “Não tenho ambições nem desejos” (O Guardador de Rebanhos – I), ele se limitava em ver e não pensar. Para ele não havia mistério nenhum nas coisas e no mundo, bastava olhar e ver as coisas como elas são. O que parece ser é, assim que Caeiro simplificava o mundo ao seu redor. O que importa são os sentimentos, pois eles próprios já são os pensamentos e a essência não existe, pois ela é a aparência e vice-versa.
O que importa é existir, estar no mundo e olhar em volta sem nunca pensar sobre o que está vendo, aceitar o mundo como ele lhe é posto e saber que não existem mistérios e nem fundamentos na realidade, o real é o que se vê e pronto, “Há metafísica bastante em não pensar em nada” (O Guardador de Rebanhos – V) / “O espelho reflete certo; não erra porque não pensa. Pensar é essencialmente errar. Errar é essencialmente estar cego e surdo” (Poemas Inconjuntos).
Ricardo Reis, discípulo de Caeiro, solidifica o paganismo, descoberto por Caeiro, através de uma escrita clássica e vocabulário erudito. Reis é médico e vive no Brasil porque por sua própria vontade expatriou-se de Portugal por ser monárquico. Ele busca o equilíbrio e, desta forma, afasta-se do naturalismo de Caeiro que aceita as coisas como são. Reis também se confronta com seu mestre ao idealizar os deuses da mitologia grega, pois para Caeiro não se deve pensar em Deus, ou melhor, não se deve ao menos pensar. Para Reis os deuses estão acima de tudo e de todos, “Acima da verdade estão os deuses. Nossa ciência é uma falhada cópia da certeza com que eles sabem que há o Universo”.
A vida de Álvaro de Campos é a que mais se aproxima da de
Pessoa por ele se tratar de um urbano e contemporâneo da eletricidade, máquinas e usinas. É engenheiro, pragmático e representa a atualidade.
Há três estágios na obra de Campos: Pré-caeiro: este estágio é caracterizado pelo simbolismo, modernidade, velocidade, eletricidade e máquina. Ao contrário de Caeiro e Reis ele guia seu próprio automóvel, se insere totalmente na modernidade e fica longe da simplicidade da vida campestre do seu mestre.
Eufórico: estágio caracterizado pelo futurismo. Caeiro é exaltado e excessivo em seus poemas. Saudação a Walt Whitman é um poema que traduz esta fase de Campos. Walt Whitman foi um poeta americano que morreu antes mesmo do nascimento de Campos e quem o influenciou de tal forma que Campos diz ser Walt Whitman e
que ele também o é. Walt Whitman era voltado para as realizações e
satisfações humanas e foi desta forma que impressionou Campos. Talvez a melhor frase que pode traduzir esta fase de Campos é esta:
“Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma” (Saudação a Walt Whitman).
Disfórico: esta fase é caracterizada pela melancolia e amargura. Caeiro se torna muito mais emoção e sensação através de poemas críticos e pessimistas. Esta fase de Campos pode ser vista com clareza em Tabacaria, um poema melancólico e pessimista.
Já Bernardo Soares não tem a importância de Caeiro, Reis e Campos, mas é ele quem escreve um dos livros mais tristes, profundos e belos de toda a obra de Pessoa, o Livro do Desassossego. Pode-se enxergar Soares como o “eu” escondido de Pessoa, a sua tristeza acumulada e guardada durante tantos anos e sua eterna solidão. “Omar tinha uma personalidade; / eu, feliz ou infelizmente, não tenho nenhuma. / Do que sou numa hora na hora seguinte me separo; / do que fui num dia no dia seguinte me esqueci. / Quem, como Omar, é quem é, vive num só mundo, que é o externo; quem, como eu, não é quem é, vive não só no mundo externo, mas num sucessivo e diverso mundo interno”.
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