A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
Resenha do livro A Insustentável Leveza do Ser – (ficção-drama) – Milan Kundera – Companhia das Letras – 2007
Data: 21/04/08
Insustentavelmente Pesado
Por: Natália Alves
Diversas questões são abordadas no livro e todas convergem para um ponto em comum, a dualidade entre o peso e a leveza. É através da história de quatro personagens principais que o roteiro se desenrola e entra na vida do leitor.
A traição é o ponto que atrai as histórias dos quatro personagens. Tomas é um homem bonito, médico, tem um filho e uma ex-mulher. Após o término de seu casamento decidiu ter uma vida mais leve, não se comprometia com nenhuma mulher. Gostava de ter relações com várias mulheres sem envolver-se emocionalmente. Para ele, este estilo de vida era a sua leveza que não o permitia ter problemas de questões amorosas, o que seria um fardo (peso) para ele.
Mas após conhecer Teresa sua vida muda, mas não totalmente. Ele se sente ligado emocionalmente à Teresa e passa a viver com ela, mas não consegue se livrar de seus antigos hábitos. “Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes, mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher).” (contracapa)
Teresa ama Tomas e não se imagina vivendo sem ele, mas suas traições a puxam para um profundo vazio. Mas não é apenas Tomas que tem a traição em seu histórico de vida. Teresa morava com a mãe e seu padrasto. Odiava tudo que era relacionado a mãe, principalmente, o seu modo de se comportar diante dos outros e o modo como expunha seu corpo sem pudor. O que mais Teresa desejava era trair tudo que sua mãe lhe ensinou e esquecer totalmente a vida que teve. Mas, para isto, precisava de Thomas.
Sabina é pintora e tem uma relação duradoura com Tomas. Duradoura sim, mas sem emoções envolvidas. Sabina era semelhante a Tomas, pois assim como ele não se permitia envolver-se profundamente com outra pessoa, ela também não se permitia. Ao conhecer Franz ela percebe que seu estilo leve de viver está ameaçado. Franz é casado e trai a mulher com Sabina. Os dois são bem diferentes no modo de pensar e de agir, mas existe um ponto comum, a traição. Sabina repugnava a idéia de fidelidade, pois se lembrava de seu pai puritano e da mesma forma que Teresa renegava a mãe, Sabina renegava o pai e sua família.
Além deste ponto comum que liga todos os personagens outros aspectos são abordados como, o eterno retorno de Nietzche, a compaixão, o Kitsch e a opressão de uma época de invasão. Todo o enredo ocorre durante a invasão russa à Tchecoslováquia, tendo como principal localização a cidade de Praga.
“Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões, são mais leves que uma pluma, já não provocam medo. Existe uma diferença infinita entre um Robespierre que apareceu uma só vez na história e um Robespierre que voltaria eternamente para cortar a cabeça dos franceses”. (pág. 9) / “Antes de sermos esquecidos. Seremos transformados em Kitsch. O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.” (pag. 314)
O que parece ser leve torna-se insustentavelmente pesado de se manter. A vida que Tomas julgava ser leve tornou-se pesada quando ele percebeu que havia se tornado escravo de uma situação, da qual, queria se ver livre para poder fazer feliz a mulher que amava. A traição à mãe que Teresa tanto objetivava só tornou seu caminho pesado por angústias e rancores.
DANTON, O PROCESSO DA REVOLUÇÃO
Resenha do filme Danton, O Processo da Revolução – (drama) – Andrzej Wajda
Data: 12/05/08
“Liberdade, Igualdade e Fraternidade”
Por: Natália Alves
Este filme retrata uma passagem da Revolução Francesa, a fase do “terror”, comandada por Robespierre. “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” era o lema da revolução, mas não era desta forma que a população francesa vivia.
Em 1794, a França estava sob o jugo do Tribunal Revolucionário. Ninguém podia se opor ao soberano porque era considerado contra-revolucionário. O Tribunal Revolucionário enviou milhares de pessoas para a guilhotina. É neste ano que Danton (Gérard Depardieu) chega em Paris e presencia o “terror” instaurado por Robespierre (Wojciech Pszoniak), seu companheiro durante a revolução. Ao tentar realizar mudanças, com o apoio de alguns revolucionários e do povo, foi considerado uma ameaça aos jacobinos (baixa burguesia aliada ao povo) e teve que enfrentar o Tribunal Revolucionário.
Segundo Jean Jacques Rousseau, a República é um contrato feito pelos súditos com o soberano, ou seja, o soberano deve exercer o seu poder em favor dos interesses dos seus súditos. Mas o filme mostra uma República que foi estabelecida sem sua principal essência. Não havia liberdade de expressão para o povo, pois eles não podiam contestar o soberano. Também não havia igualdade e fraternidade, pois o país passava por dificuldades econômicas, o povo vivia na miséria e eram tratados como animais.
Um aspecto importante retratado pelo filme é o fato de que Robespierre agia acima das leis, ditando regras sem se preocupar com as convenções. Esta atitude desrespeitava o processo de institucionalização e não passava confiança para o povo, que passou a não acreditar nas leis e nas instituições.
Duas cenas do filme chamam a atenção para o processo natural do qual Rousseau falava (“O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros”): um menino nú está em uma banheira e a mulher, que lhe dava banho, o obrigava a decorar as leis da República e no final do filme ele aparece ao lado de Robespierre falando tudo que havia decorado e vestido com uma roupa não mais de criança, mas de um homem.
Danton, O Processo da Revolução é um filme histórico que pode ser avaliado por diversas vertentes ideológicas e políticas e, sem dúvida, gera um bom debate. Sem falar que a atuação de Gérard Depardieu foi brilhante. O que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator, juntamente com Wojciech Pszoniak, no Festival de Montreal.
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